Biografia




José Saramago em criança
com 6, 8 e 10 anos


As Oliveiras da Infância

Azinhaga, uma aldeia ribatejana que não vem no mapa, ganhou agora honras de primeira página. Foi nessa pequena freguesia do concelho da Golegã, rodeada de oliveiras de troncos antigos, que nasceu José de Sousa Saramago, a 18 de Novembro de 1922. Ou melhor, a 16, porque para evitar a multa de um registo fora de prazo, a família, pobre, roubou-lhe dois dias à existência. Também o registo do nome Saramago se deve aos vapores etílicos que toldavam o oficial do registo. Isto porque Saramago era a alcunha de família e não apelido. Como recorda o escritor: «A minha família tinha a alcunha de Saramago, que é o nome de uma planta silvestre, que dá uma florzinha com quatro pétalas e cresce pelos cantos, quase sempre esquecida». O pai chamava-se José de Sousa (a mãe Maria da Piedade) e terá dito apenas sobre o recém-nascido: «Vai chamar-se José como eu». O resto foi da lavra do diligente oficial. E assim deu ao mundo o nome que havia de ser Nobel.
(Maria Leonor Nunes - JL – Quarta-Feira, 14 de Outubro de 1998)



José Saramago

José Saramago nasceu na aldeia de Azinhaga (Golegã), em 1922. Fez estudos secundários (liceal e técnico) que, por dificuldades económicas, não pôde prosseguir.
No seu primeiro emprego foi serralheiro mecânico, tendo exercido depois, diversas outras profissões: desenhador, funcionário de saúde e de previdência social, editor, tradutor, jornalista.
Publicou o seu primeiro livro, um romance, em 1947. Colaborou como crítico literário na revista Seara Nova. Em 1972 e 1973 fez parte da redacção do jornal Diário de Lisboa.
Pertenceu à primeira direcção da Associação Portuguesa de Escritores e foi, desde 1985 a 1994, presidente da Assembleia Geral da Sociedade Portuguesa de Autores.
Entre Abril e Novembro de 1975 foi director-adjunto do jornal Diário de Notícias. A partir de 1976 passou a viver exclusivamente do seu trabalho literário, primeiro como tradutor, depois como autor.

É Doutor Honoris Causa pelas Universidades de Turim (Itália), de Sevilha (Espanha) e de Manchester (Reino Unido); membro Honoris Causa do Conselho do Instituto de Filosofia do Direito e de Estudos Histórico-Políticos da Universidade de Pisa (Itália); membro da Academia Universal das Culturas (Paris); membro correspondente da Academia Argentina das Letras; membro do Parlamento Internacional de Escritores (Estrasburgo).

José Saramago foi laureado com o Prémio Nobel da Literatura 1998 pela The Nobel Foundation.


Prémios e/ou outras distinções:
  • 1980 Prémio Cidade de Lisboa [Levantado do Chão]
  • 1983 Prémio Pen Club [Memorial do Convento]
  • 1983 Prémio Literário Município de Lisboa [Memorial do Convento]
  • 1985 Prémio Pen Club [O Ano da Morte de Ricardo Reis]
  • 1985 Prémio da Crítica (Assoc. Portuguesa de Críticos) [O Ano da Morte de Ricardo Reis]
  • 1986 Prémio D. Dinis (Fundação da Casa de Mateus) [O Ano da Morte de Ricardo Reis]
  • 1987 Prémio Grinzane - Cavour (Alba, Itália) [O Ano da Morte de Ricardo Reis]
  • 1991 Grande Prémio de Romance e Novela da Assoc. Portuguesa de Escritores [O Evangelho Segundo Jesus Cristo]
  • 1992 Prémio Literário Internacional Mondello (Palermo, Itália) [Ensaio Sobre A Cegueira]
  • 1992 Prémio Brancatti (Zafferana, Itália) [Ensaio Sobre a Cegueira]
  • 1992 Prémio Ennio Flaiano (Itália) [Levantado do Chão]
  • 1993 The Independent Foreign Fiction Award (Inglaterra) [O Ano da Morte de Ricardo Reis]
  • 1993 Prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores
  • 1995 Prémio de Consagração de Carreira da Sociedade Portuguesa de Autores
  • 1995 Prémio Camões
  • 1995 Prémio Scanno / Universidade G. D'Annunzi [Objecto Quasi]
  • 1998 Prémio Nacional de Narrativa Città di Pienne (Itália)
  • 1998 Prémio Europeu de Comunicação Jordi Xifra Heras (Girona)
  • 1998 Prémio Nobel de Literatura



Arquivo Fotográfico





O Poeta
Com 44 anos, publica o primeiro livro de poesia, Poemas Possíveis.
Mais tarde, afirma: «Poderia ser um poeta com alguns poemas mais ou menos bons,
mas não mais do que isso.»



A casa
Com a mãe, à porta da casa térrea onde nasceu.
Pouco depois, ela seria demolida, por causa de «uma história de partilhas e ódio fraterno»



O último amor
Aos 66 anos, o escritor casa-se, numa cerimónia íntima, realizada na sua casa de Lisboa,
com a jornalista Pilar del Río, 28 anos mais nova do que ele.



A família
Em 1993, na varanda da casa de Lanzarote, Saramago rodeado (no sentido dos ponteiros do relógio) por Pilar, o filho desta, Juan Jose, o cão Camões, o neto e a neta (Tiago, 14 anos e Ana, 26, engenheira informática), o genro Danilo, e a filha, Violante.





Bibliografia do autor



Poesia
Os poemas possíveis [Lisboa: Portugália, 1966; Caminho, 1992].
Provavelmente Alegria [Lisboa: Livros Horizonte, 1970 Caminho, 1985]
O Ano de 1993 [Lisboa: Futura, 1975; Caminho, 1987]

Crónica
Deste Mundo e Do Outro [Lisboa: Arcádia,1971;Caminho, 1986]
A Bagagem do Viajante [Lisboa: Futura, 1973; Caminho,1986]
As Opiniões que o DL Teve [Lisboa: Seara Nova/ Futura, 1974]
Os Apontamentos. [Lisboa: Seara Nova, 1976; Caminho, 1990]

Viagens
Viagem a Portugal [Lisboa: Círculo de leitores,1981; caminho, 1984]

Teatro
A Noite [Lisboa: Caminho,1979]
Que Farei com Este Livro? [Lisboa: Caminho, 1980]
A Segunda Vida de Francisco de Assis [Lisboa: Caminho, 1987]
In Nomine Dei [Lisboa: Caminho,1993]

Diário
Cadernos de Lanzarote I [Lisboa: Caminho, 1994]
Cadernos de Lanzarote II [Lisboa: Caminho, 1995]
Cadernos de Lanzarote III [Lisboa: Caminho, 1996]
Cadernos de Lanzarote IV [Lisboa: Caminho, 1997]
Cadernos de Lanzarote V [Lisboa: Caminho, 1998]

Conto
Objecto Quase [Lisboa: Moraes, 1978; Caminho, 1984]
Poética dos Cinco Sentidos [obra colectiva] “O Ouvido” [Lisboa:Bertrand, 1979]
O Conto da Ilha Desconhecida [Lisboa: Pavilhão de Portugal na Expo 98/ Assírio & Alvim, 1997]
A Maior Flor do Mundo [Lisboa, 2001]

Romance
Terra do Pecado [1947: Lisboa: Caminho, 1997]
Manual de Pintura e Caligrafia, [Lisboa: Moraes, 1977; Caminho: 1983]
Levantado do Chão, [Lisboa: Caminho, 1980]
Memorial do Convento, [Lisboa: Caminho, 1982]
O Ano da Morte de Ricardo Reis, [Lisboa: Caminho, 1984]
A Jangada de Pedra, [Lisboa: Caminho, 1986]
História do Cerco de Lisboa, [Lisboa: Caminho, 1989]
O Evangelho Segundo Jesus Cristo, [Lisboa: Caminho, 1991]
Ensaio sobre a Cegueira, [Lisboa: Caminho, 1995]
Todos os Nomes [Lisboa: Caminho, 1997]
Obra completa [Porto: Lello & Irmão, 1991]
A Caverna [Lisboa: Caminho, 2000]
O Homem Duplicado [Lisboa: Caminho, 2002]
Memorial do Convento (Edição Especial) [Lisboa: Caminho, 2002]
Ensaio Sobre a Lucidez [Lisboa: Caminho, 2004]

Discursos
Discursos de Estocolmo [Lisboa: Caminho, 1999]
Folhas Políticas (1976-1998) [Lisboa: Caminho, 1999]




Cronologia


1922José Saramago nasce a 16 de Novembro, na aldeia de Azinhaga, no Ribatejo.
1924Os seus pais mudam-se para Lisboa. Morre-lhe um irmão com quatro anos.
1929Inscreve-se na Escola Primária da Rua Martins Ferrão. Descobre-se, na altura, um erro na sua certidão de nascimento. O funcionário do Registo acrescentou “Saramago”, a alcunha da família, como seu apelido. Assim, José é o primeiro “Saramago” da família Meirinho de Sousa.
1930Muda-se para a Escola Primária do Largo do Leão.
1932Matricula-se no Liceu Gil Vicente.
1933A mãe oferece-lhe o seu primeiro livro, O Mistério do Moinho.
1934Transfere-se, por causa de dificuldades económicas, para a Escola Industrial Afonso Domingues.
1939Termina os estudos na Serralharia Mecânica da Escola Industrial Afonso Domingues. Consegue o seu primeiro trabalho, como serralheiro mecânico.
1940Passa as suas noites na Biblioteca do Palácio das Galveias, onde lê tudo o que pode.
1942Ocupa um cargo nos serviços administrativos do Hospital Civil de Lisboa.
1943Trabalha na Caixa de Abono de Família do Pessoal da Indústria da Cerâmica.
1944Casa com a pintora Ilda Reis.
1947Terra do Pecado (romance), Editorial Minerva. Nasce a sua única filha, Violante.
1949Clarabóia, uma novela que nunca chegou a ser publicada. Esta obra continua inédita, apesar da editora, que o havia recusado, lhe ter feito uma proposta de edição passados 40 anos.
1950Trabalha na Companhia de Seguros Previdente.
1955Trabalha no sector de produção da Editorial Estúdios Cor.
1959Abandona o seu trabalho na Companhia de Seguros e passa a trabalhar, em exclusivo, na Editorial Estúdios Cor, onde ocupa o lugar de editor literário, deixado vago por Nataniel Costa.
1966Quase vinte anos depois, de Terra do Pecado, edita o seu primeiro livro de poesia, Os Poemas Possíveis (Portugália).
1969Colabora, como critico literário, na Seara Nova. Torna-se membro do Partido Comunista Português, que nunca viria a abandonar.
1970Provavelmente Alegria (poesia), Livros Horizonte. Divorcia-se de Ilda Reis. Inicia relação com Isabel da Nóbrega, que mantém até 86.
1971Deste Mundo e do Outro, Editorial Arcádia (crónicas publicadas no diário A Capital, cujo suplemento A Semana coordenou). Abandonou a Editorial Estúdios Cor.
1972Nasce a sua primeira neta, Ana. Exerce funções de editorialista no Diário de Lisboa (DL).
1973A Bagagem do Viajante (segundo volume de crónicas publicadas n’A Capital e no Jornal do Fundão), Editorial Futura. Coordena, durante cerca de um ano, o suplemento literário do Diário de Lisboa.
1974As Opiniões que D.L. teve (Seara Nova). Orienta a revista Arquitectura. Depois do 25 de Abril, é chamado para trabalhar no Ministério da Comunicação Social.
1975Entre Abril e Novembro, é Director-Adjunto do Diário de Notícias. Afastado do jornal, na sequência do 25 de Novembro, decide dedicar-se em exclusivo, à escrita. Entretanto, continua a traduzir (entre 55 e 81 traduzirá 48 livros). O Ano de 1993 (poesia), Editorial Futura.
1976Os Apontamentos (crónicas), Seara Nova. Durante alguns meses, muda-se para Lavre, Montemor-o-Novo, local onde convive com os trabalhadores da União Cooperativa de Produção Boa Esperança. Desta experiência, nascerá Levantado do Chão.
1977Manual de Pintura e Caligrafia (romance), Moraes Editores.
1978Objecto Quase (contos), Moraes Editores.
1979Poética dos Cinco Sentidos (obra colectiva, contos, Saramago escreve sobre O Ouvido), Bertrand Editores. A Noite (teatro). Editorial Caminho (que, a partir de agora, salvo referência em contrário, publicará todos os seus livros). Encenação de A Noite, pelo Teatro de Almada, com encenação de Joaquim Benite.
1980Publica Levantado do Chão, o romance em que aparece de forma definitiva o “estilo Saramago” e que ganha o Prémio Cidade de Lisboa.
Publica outra obra de teatro: Que Farei com Este Livro? Encenação de O Que Farei com Este Livro?, pelo Teatro de Almada, com encenação de Joaquim Benite.
1981Viagem a Portugal, (Círculo de Leitores).
1982Memorial do Convento (romance), a sua obra mais vendida em Portugal – até agora 281 mil exemplares -, que o consagraria internacionalmente.
1983Prémio Pen Clube e Prémio Literário Município de Lisboa para Memorial do Convento.
1984O Ano da Morte de Ricardo Reis (romance). Nasce o seu segundo neto, Tiago. Presidente da Assembleia Geral da Sociedade Portuguesa de Autores.
1985Condecorado pelo Presidente da República Mário Soares com a Ordem Militar de Santiago de Espada, grau de comendador. Prémios Pen Clube e da Crítica da Associação Portuguesa de Críticos para O Ano da Morte de Ricardo Reis.
1986A Jangada de Pedra (romance). Prémio D. Dinis da Fundação da Casa de Mateus para O Ano da Morte de Ricardo Reis. Inicia no Jornal de Letras “A Letra da Tabuleta” (crónicas).
1987A Segunda Vida de Francisco de Assis (teatro), encenada, mais tarde, pelo Teatro Aberto. Prémio Grinzane-Cavour (Alba, Itália) para O Ano da Morte de Ricardo Reis.
1988Casa com a jornalista espanhola, Pilar del Rio.
1989História do Cerco de Lisboa (romance).
1990Estreia, no Teatro alla Scala de Milão, a ópera Blimunda, do compositor italiano Azio Corghi, extraída de Memorial do Convento, com encenação de Jerome Savary.
1991O Evangelho Segundo Jesus Cristo (romance), a sua obra com mais edições em Portugal, 21. Com ela, vence o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores. Prémio Bracati (Zafferana, Itália). Estreia portuguesa da ópera Blimunda, no Teatro de São Carlos. É editada a sua obra completa, pela Editorial Lello. Recebe o doutoramento “honoris causa” pelas Universidades de Sevilha e de Turim.
1992O subsecretário de estado da Cultura, Sousa Lara, do governo de Cavaco Silva, veta a candidatura d’ O Evangelho Segundo Jesus Cristo ao Prémio Literário Europeu. Prémio Ennio Flaiano (Itália) para Levantado do Chão. Prémio Literário Internacional Mondello (Palermo, Itália).
1993Fixa residência na ilha espanhola de Lanzarote, no arquipélago das Canárias, como reacção ao acto censório de que foi vítima por parte do governo português. In Nomine Dei (teatro). Prémio The Independent Foreign Fiction (Inglaterra) para O Ano da Morte de Ricardo Reis. Prémio Vida Literária da Associação portuguesa de Escritores, com sede em Estrasburgo. Estreia-se na Alemanha, no Teatro de Münster, a ópera Divara, baseada em In Nomine Dei, com música de Azio Corghi e encenação de Dietrich Hilsdorf.
1994Cadernos de Lanzarote I (diário). João Mário Grilo realiza Saramago: documentos, produção Zebra Filmes/RTP.
1995Ensaio sobre a Cegueira (romance). Cadernos de Lanzarote II (diário). Prémio Camões. Prémio de Consagração de Carreira da Sociedade Portuguesa de Autores. Doutotado “honoris causa”, pela Universidade de Manchester.
1996Cadernos de Lanzarote III (diário).
1997Cadernos de Lanzarote IV (diário). Todos os Nomes (romance). Passa a colaborar na revista Visão.
1998O Conto da Ilha Desconhecida, conto inédito, (Assírio & Alvim). Prémio Scanno/Universidade G. D’ Annunzi para Objecto Quase. Anuncia a publicação do seu próximo livro, A Caverna, “uma versão moderna do mito platónico da caverna”. A 8 de Outubro, é-lhe atribuído, pela Real Academia Sueca, o Prémio Nobel da Literatura, que receberá a 10 de Dezembro. Hoje, dia 14, é posto à venda o 5º volume de Cadernos de Lanzarote V (diário). Homenagem do Ministério da Cultura português e da Biblioteca Nacional a prestar, pelas 19 horas, no CCB.
1999Doutor honoris causa pela Universidade de Évora (Janeiro)
Discursos de Estocolmo (Abril).
Folhas Políticas (1976-1998). (Novembro).
2000A Caverna (Novembro)
2001A Maior Flor do Mundo (Novembro)
2002O Homem Duplicado (Novembro)
Memorial do Copnvento - Edição Especial. (Dezembro).
2004Ensaio Sobre a Lucidez (Março)





Prémio Nobel - Discurso de agradecimento


Cumpriram-se hoje exactamente cinquenta anos sobre a assinatura da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Não têm faltado comemorações à efeméride. Sabendo-se, porém, como a atenção se cansa quando as circunstâncias lhe pedem que se ocupe de assuntos sérios, não é arriscado prever que o interesse público por esta questão comece a diminuir já a partir de amanhã. Nada tenho contra esses actos comemorativos, eu próprio contribuí para eles, modestamente, com algumas palavras. E uma vez que a data o pede e a ocasião não o desaconselha, permita-se-me que diga aqui umas quantas mais.

Neste meio século não parece que os Governos tenham feito pelos direitos humanos tudo aquilo a que moralmente estavam obrigados. As injustiças multiplicam-se, as desigualdades agravam-se, a ignorância cresce, a miséria alastra. A mesma esquizofrénica humanidade capaz de enviar instrumentos a um planeta para estudar a composição das suas rochas, assiste indiferente à morte de milhões de pessoas pela fome. Chega-se mais facilmente a Marte doq eu ao nosso próprio semelhante.

Alguém não anda a cumprir o seu dever. Não andam a cumpri-lo os Governos, porque não podem, ou porque não querem. Ou porque não lho permitem aqueles que efectivamente governam o mundo, as empresas multinacionais e pluricontinentais cujo poder, absolutamente não democrático, reduziu a quase nada o que ainda restava do ideal da democracia. Mas também não estão a cumprir o seu dever os cidadãos que somos. Pensemos que nenhuns direitos humanos poderão subsistir sem a simetria dos deveres que lhes correspondem e que não é de esperar que os Governos façam nos próximos cinquenta anos o que não fizeram nestes que comemoramos. Tomemos então, nós, cidadãos comuns, a palavra. Com a mesma veemência com que reivindicamos também o dever dos nossos deveres. Talvez o mundo possa tornar-se um pouco melhor.

Não esqueci os agradecimentos. Em Frankfurt, no dia 8 de Outubro, as primeiras palavras que pronunciei foram para agradecer à Academia Sueca a atribuição do Prémio Nobel da Literatura. Agradeci igualmente aos meus editores, aos meus tradutores e aos meus leitores. A todos torno a agradecer. E agora também aos escritores portugueses e de língua portuguesa, aos do passado e aos de hoje: é por eles que as nossas literaturas existem, eu sou apenas mais um que a eles se veio juntar. Disse naqueles dia que não nasci para isto., mas isto foi-me dado. Bem hajam, portanto.

(Vértice 87/Novembro-Dezembro 1998 - Estocolmo, 10 de Dezembro de 1998)
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