01 dezembro 2014

Assembleia Municipal aprova Saudação ao Cante Alentejano

Saudação

 

 A Assembleia Municipal de Montemor-o-Novo reunida em sessão ordinária no dia 28 de novembro de 2014 saúda a decisão do Comité Internacional da UNESCO de inscrever o cante alentejano como Património Cultural Imaterial da Humanidade. Tal decisão reconhece a relevância patrimonial do cante, o seu valor excepcional como símbolo identificador do Alentejo e identitário dos alentejanos, o seu enraizamento profundo na tradição e história cultural do País, a sua importância como fonte de inspiração e de troca intercultural entre povos e comunidades, sendo motivo de satisfação e orgulho para todos os portugueses.

 

No cante alentejano, quando as vozes se sobrepõem e adensam nesse sopro quente que parece deixar um sabor a terra na boca, é como se aquela a música procurasse encenar os tempos de um canto de trabalho, em que a música ondulava nos campos enquanto homens e mulheres embalavam os movimentos da ceifa ou da monda, ceifavam, mondavam, se empoleiravam nas árvores na apanha da azeitona ou da bolota, desenhavam os passos atrás dos animais com um arado. E, nas pausas dessa fisicalidade intensa, era também o cante que distraía o corpo das dores da labuta e acompanhava a bucha. O cante, evocação da natureza, dos amores, da morte, da natureza e sobretudo do amor por uma terra a que a vista não alcança fim, consolava, ajudava a jornada a morrer mais depressa.

 

E como escreveu Lopes Graça:“(….) não constituirá acaso grande temeridade o definir o povo alentejano como sendo o mais «musical» da gente portuguesa – entendendo-se por aí a sua natural capacidade para se traduzir e consciencializar em canto, a sua rara espontaneidade mélica, enfim aquilo a que poderemos chamar a sua temperamental disponibilidade lírica, que o leva a achar boas todas as ocasiões, todas as horas, para dar largas à sua inata musicalidade. E, porventura, mais do que isso: a gravidade que põe no ato de cantar, para ele verdadeiro ato de identificação coletiva, de comunhão espiritual com os do seu sangue e da sua pátria, para onde quer que vá, onde quer que se encontre. Em roda, os olhos cerrados, expressão concentrada do rosto, o mais das vezes ombro a ombro ou braços com braços em ondulada movimentação, assim entoam os ganhões alentejanos os seus cantos. E é como se cumprissem um antigo e necessário ritual.”

 

Os eleitos da Assembleia Municipal de Montemor-o-Novo expressam a convicção de que a decisão agora adoptada pela UNESCO vai contribuir para a salvaguarda e a promoção do cante alentejano, essa genuína expressão cultural de um povo, bem como para o surgimento de novos projectos musicais, turísticos e académicos, tudo isso concorrendo para um maior desenvolvimento do Alentejo e do País.

 

A Assembleia Municipal de Montemor-o-Novo felicita todos os que, com o seu trabalho, saber e dedicação, tornaram possível a concretização deste objectivo: o povo de cujo trabalho, vida e luta nasceu como impressiva expressão cultural, os cantadores alentejanos, os seus grupos corais, as colectividades e os seus ativistas, que têm preservado e dignificado o cante alentejano, bem como as muitas personalidades e entidades que promoveram esta candidatura.

 

Montemor-o-Novo, 28 de Novembro de 2014

 

Deliberação: Aprovada por unanimidade