26 setembro 2019

Assembleia Municipal de Montemor-o-Novo assinala o 40º Aniversário do Assassinato de Caravela e Casquinha

​​

Na sessão da Assembleia Municipal de Montemor-o-Novo, realizada no dia 20 de setembro de 2019, foi apresentada pelos Eleitos da CDU-Coligação Democrática Unitária a seguinte Evocação:

 

«No dia 27 de setembro fará 40 anos que, na herdade de Vale de Nobre, freguesia de S. Cristóvão, foram covardemente assassinados os trabalhadores José Geraldo "Caravela", de 57 anos e António Maria do Pomar Casquinha, apenas com 17.

Estes trabalhadores apenas estavam a defender pacificamente aquilo que consideravam justo e, portanto, a exercer o seu direito de resistência, direito esse consagrado na Constituição da República.

Estavam, juntamente com outros trabalhadores, alguns dos quais ficaram também feridos, a defender aquela que foi uma das mais belas conquistas da revolução de Abril, a Reforma Agrária.

Essa Reforma Agrária que permitiu a saída do limiar da pobreza a milhares de trabalhadores do Alentejo ao garantir trabalho remunerado todo o ano e alguns dos direitos que, ainda hoje perduram tal como as ferias ou os feriados pagos, o subsídio de férias ou o 13o mês.

A mesma que permitiu que nesses anos Portugal se tivesse tornado quase autossuficiente em matéria alimentar.

Aquela Reforma Agrária que os governos da altura atacaram e destruíram levando de novo o desemprego e o espectro da fome aos campos do Alentejo.

Estes trabalhadores morreram assassinados em tempo de "Democracia" e os seus assassinos diretos ou os mandantes nunca foram julgados.

Quando se julgava que os assassínios políticos já pertenciam a um tempo que tinha acabado, eis que a dura realidade nos aparece, nua e crua.

Nestas situações ficamos com um nó na garganta e as palavras recusam- se a formar-se.

Quando não temos palavras socorremo-nos das palavras de outrem.

Neste caso pedirei emprestadas as palavras do poeta José Gomes Ferreira:

 

"Aqui

nesta planície de sol suado

dois homens desafiaram a morte, cara a cara, 

em defesa do seu gado

de cornos e tetas.

Aqui

onde agora vejo crescer uma seara

de espigas pretas.

Quando os dois camponeses desceram às covas, 

ante os punhos cerrados de todos nós,

chorei!

Sim, chorei

sentindo nos olhos a voz

do que há de mais profundo

nas raízes dos homens e das flores 

a correrem-me em lágrimas na face.

Chorei pelos mortos e pelos matadores

– almas de frio fundo.

Digam-me lá:

para que serviria ser poeta

se não chorasse

publicamente

diante do mundo?"

 

Montemor-o-Novo, 20 de Setembro de 2019